BIOGRAFIA - SÍLVIO
SANTOS

Silvio Santos veio daqui
História de vida do
homem mais conhecido do País tem passagens que
poucos conhecem. Saiba como foi a trajetória do
Homem do Baú
Élcio Braga,
Patrícia Melo e Souza e Rachel Vita
O moleque era um zero à
esquerda na escola, faltava à maioria das aulas
e encarnava um pestinha com os colegas. Seis
décadas depois, aquele por quem ninguém daria
um tostão estava no alto do carro alegórico da
Tradição, no Domingo de Carnaval, abrindo o
desfile em sua homenagem. Quando o abre-alas
entrou na concentração, Silvio Santos (nome
artístico de Senor Abravanel) ficou petrificado
com a cena que viu: o Sambódromo, em peso,
gritava o seu nome.
A história do Homem
do Baú
Silvio, desse jeito
você não vai ser ninguém na vida. Só pensa em
futebol". Por ironia do destino, essa era a
frase que Senor Abravanel, aos 12 anos, ouvia
diariamente de sua professora de 5ª série,
Maria Lourdes Bruce, da Escola Primária
Celestino da Silva, na Rua do Lavradio, Centro do
Rio. A ladainha era sempre a mesma, já que
Silvio gostava mais de falar do que de estudar.
Era comum ver o menino contar histórias para os
alunos sobre a atuação dos times de futebol.
Silvio é torcedor do Fluminense.
As travessuras de
Cenourinha apelido dado por colegas de
Silvio, pelo diminutivo de Senor não se
limitavam à sala de aula. Sua mãe, Rebecca
Abravanel, vivia atrás do menino, com chinelo na
mão, pelas ruelas da Vila Rui Castro, na
Travessa Bentevi, no Centro, onde ele nasceu.
Silvio brincava horas com os amigos, na rua, e
não dava sossego à Dona Rebecca.
"Ele era um capetinha.
Não havia quem o controlasse, apesar da rigidez
da mãe", lembra Lydia Marques da Silva, 68
anos, colega de turma de Silvio e vizinha na Vila
Rui Castro.
O temperamento intempestivo
de Rebecca vem do sangue. Turca, trazia a rédeas
curtas Silvio e os outros cinco filhos (Beatriz,
Sara, Leon ou Léo , Perla e
Henrique). Rebecca conheceu o pai de Senor no
Rio. Alberto Abravanel deixou a Grécia, onde
nasceu, fugindo do serviço militar. Procurou
refúgio na França, mas acabou preso em
flagrante e expulso por trabalhar como camelô.
No mar de incertezas, o
jovem embarcou em um navio para o Brasil, onde
acabou constituindo a família Abravanel. Com o
dinheiro ganho no trabalho como intérprete e
guia turístico, no porto, graças às línguas
que dominava, Alberto comprou uma lojinha, na
Praça Mauá, onde vendia souvenirs. A família
era considerada remediada. Mas tudo começou a
desandar quando o pai se viciou no jogo. Nos
salões dos cassinos, Alberto perdeu a única
fonte de renda. Irritado, Silvio deixou a escola,
por dois meses, e passou ganhar dinheiro
apostando com jogadores de sinuca, nos bares da
Lapa.
Apesar do esforço e da
persistência, o trabalho complicava a vida
escolar de Silvio, que nem sempre conseguia ir
às aulas. No terceiro ano básico, por exemplo,
quando tinha 19 anos, das 459 aulas previstas no
currículo, ele faltou a 234. Ou seja: 51%.
Para se divertir, Silvio
usava a imaginação e driblava a falta de
dinheiro com travessuras. Desde os 12 anos, nos
cinemas da Cinelândia, ele e o irmão Léo
entravam pela saída das sessões, para não
pagar ingresso.
"No Odeon, nós nos
infiltrávamos entre o público que saía e
caminhávamos em sentido contrário, andando para
dentro do cinema", contou Silvio, em
entrevista reproduzida no livro A Fantástica
História de Silvio Santos, da Editora do Brasil,
escrito pelo jornalista Arlindo Silva. O dinheiro
economizado com os ingressos era gasto em outra
mania de Silvio: ele colecionava figurinhas que
vinham em balas.
O cinema realmente
fascinava Silvio. Ainda mais a série O Vale dos
Desaparecidos, todas as quintas-feiras, no
extinto Cine OK. Era a única sessão em que ele
pagava para entrar. "Não podíamos correr o
risco de não poder entrar de carona (...). No
Cine OK, nossa pilantragem não dava certo,
porque o porteiro e o guarda de serviço já nos
conheciam", recorda Silvio, no livro.
Foi numa dessas tardes de
quinta-feira que a estrela de Silvio começou a
brilhar. Gripado e com febre alta, ele foi
impedido pela mãe de sair de casa para assistir
a seu seriado preferido. Ficou arrasado e chorou.
Mas a palavra da mãe prevaleceu. Pouco depois,
ele descobriu que havia escapado da morte. O Cine
OK pegou fogo e muitos espectadores ficaram
feridos. Foi o primeiro de uma série de golpes
de sorte na vida de Silvio.
Um amigo fiel de
muitos anos

Depois de acompanhar Silvio
Santos por 25 anos, o jornalista Arlindo Silva
(foto) decidiu escrever a história do patrão.
Em novembro do ano passado, o assessor de
imprensa do apresentador lançou o livro A
Fantástica História de Silvio Santos, pela
Editora do Brasil. O interesse do público
garantiu o primeiro lugar em vendagem no País
por algumas semanas.
"Vi que Silvio Santos
despertava o interesse de muita gente. Mas só
pude escrever o livro quando me aposentei. Antes,
não tinha tempo para me dedicar como
queria", disse.
Pelas livrarias de todo o
País, foram distribuídos 80 mil exemplares do
livro, com 277 páginas. A biografia já está na
oitava edição. Arlindo garante que Silvio não
participou da elaboração do texto. O jornalista
usou uma entrevista que Silvio Santos concedeu a
ele, quando ainda trabalhava na revista O
Cruzeiro, em 1972, reproduzida no início do
livro.
"Entrevistei amigos,
parentes e funcionários. Só mostrei a ele
depois de pronto. Silvio leu durante uma viagem
aos Estados Unidos. Quando voltou, disse que
tinha gostado muito, mas perguntou se o livro
não estava muito simpático a ele. Eu acredito
que não. A vida dele é assim mesmo. Sem
problemas", conta Arlindo Silva, que
percorreu o mundo fazendo reportagens para a
revista O Cruzeiro.
Silvio antes de ser
patrão
Aos 14 anos, Silvio
descobriu que podia
ganhar dinheiro vendendo capas de plástico
para título de eleitor. Deu o pontapé iniciaL
para construir o seu império
VIDA MILITAR.
Aos 18 anos, na Escola de Pára-quedista,
em Deodoro
Com a venda de um simples
porta-título, o início de uma fortuna. Aos 14
anos, Silvio Santos decidiu ganhar a vida como
camelô. Comprou uma carteira para guardar
título de eleitor e saiu pela rua dizendo que
era a última. Vendeu de imediato. Com o lucro,
comprou mais duas peças. "É a
última", alardeava, escondendo a outra no
bolso.
Esperto, o garoto havia
descoberto o filão na Avenida Rio Branco. Há
dias observara os camelôs em ação. Queria
encontrar uma maneira de ganhar dinheiro, sem
muito esforço. Chamou-lhe atenção um homem que
vendia porta-título a rodo. À espreita, seguiu
o vendedor para descobrir onde se conseguia a
mercadoria a preço de banana.
Silvio conta que muitas
pessoas consideram que a moeda com que comprou o
primeiro porta-título foi como a do Tio
Patinhas, personagem de Walt Disney. Deu-lhe
muita sorte.
Ele não queria mais
depender da família. Afinal, o pai, Alberto
Abravanel, perdia o que ganhava com o jogo. A
mãe, severa, ameaçava-o: "Vai ter de
trabalhar, senão não vai ter o que comer, e
ainda vai apanhar mais", disse ele, em
passagem citada no livro A Fantástica
História de Silvio Santos, de autoria de
Arlindo Silva.
Foi então que decidiu
apostar na carreira de camelô, profissão
também ilegal naquela época. Nas ruas do
Centro, havia, no máximo, 15 pessoas trabalhando
como ambulantes. O campeão de venda era um tal
de Seu Augusto, que vendia quase 200 canetas em
apenas uma hora. O faro de comerciante de Silvio
Santos sabia que ali poderia estar a fórmula do
dinheiro fácil. Mais uma vez, observou um outro
mestre. Era preciso, antes de tudo,
atrair a atenção do público. Falar do produto,
de suas funções e, só no fim, do preço.
A lição foi bem
assimilada. Até a bancada para colocar o produto
acabou copiada de Seu Augusto. Mas Silvio Santos
foi além do mestre. Usou até
manipulações de moedas e baralhos para atrair
novos fregueses. Com alguns dias de experiência,
passou a vender mais que Seu Augusto. Chegou a
ganhar cinco salários mínimos por dia. E tudo
isso no horário do almoço do rapa.
Seus primeiros empregados
foram Pedro Borboleta, o sobrinho do falecido
Adolpho Bloch, ex-dono da Manchete, e seu irmão
Léo. Enquanto um fingia ser cliente, o outro
tomava conta dos passos dos guardas. Silvio teve
várias vezes sua mercadoria apreendida. Mas foi
exatamente um dos rapas que mudou sua vida de
vez.
O diretor de fiscalização
da prefeitura, Renato Meira Lima, não prendeu
Silvio, como fez com os outros camelôs. Decidiu
dar uma chance ao rapaz, que tinha uma aparência
melhor do que os colegas, falava bem e tinha boa
voz. Em vez de levá-lo para a delegacia, Renato
entregou-lhe um cartão para tentar um emprego na
Rádio Guanabara. Mais uma vez, a sorte lhe batia
à porta.
Na emissora, Silvio
disputou uma vaga com outros 300 candidatos.
Entre eles estavam nomes que despontariam na vida
artística, como o dos humoristas Chico Anysio e
José Vasconcellos (o gago Ruy Barbosa, da
Escolinha do Barulho, na Rede Record). Acabou
abocanhando o primeiro lugar. Mas a carreira na
Rádio Guanabara durou apenas um mês. Como
camelô, Silvio ganharia mais, trabalhando bem
menos. Então, voltou às ruas, para negociar e
faturar.
Silvio só trocou as ruas
por um outro serviço quando ingressou no
Exército. Ao completar 18 anos, escolheu a
Escola de Pára-quedistas, em Deodoro. E como a
cana militar seria mais dura, caso
fosse preso pelo rapa, Silvio tomou uma decisão:
voltou a ser locutor, desta vez na Rádio
Continental, em Niterói. Nas idas e vindas
enfadonhas das barcas da Cantareira, o locutor
teve outra idéia: montar um serviço de
alto-falantes.
O jovem locutor fazia
anúncios nos intervalos das músicas. Mais
tarde, percebeu que, nas travessias para
Paquetá, os passageiros costumavam dançar
quando ligava o equipamento de som. Cansados,
formavam até fila para beber água no bebedouro.
Oportunista, Silvio fez acordo com a Antarctica
para vender cerveja e refrigerante na viagem.
Quem comprasse uma bebida, recebia uma cartela de
bingo. Como prêmio, oferecia bolsa de plástico,
jarra e quadro da Última Ceia.
Ele garante ter passado a
ser o primeiro freguês da cervejaria no Rio. E
acabou fazendo amizade com um diretor da empresa.
Quando a barca sofreu um acidente e precisou
ficar no estaleiro, Silvio foi convidado pelo
diretor para passar uma temporada em São Paulo.
Mais uma vez, abriu-se a porta da esperança e
sua vida mudou ainda mais.
A carreira de
vendedor na barca
Foram muitos os que
testemunharam, dia a dia, a ascensão de Silvio.
O contra-mestre das Barcas S/A, Leatal de
Oliveira Ramos, 60 anos, lembra-se do jovem
camelô anunciando com desenvoltura, na entrada
das barcas de Niterói, suas mercadorias:
canetas, espelhos, relógios, livretos, pentes e
o que mais fosse necessidade à época. "Sua
voz era inconfundível. Os outros ambulantes
gostavam de ficar perto dele, pois sempre havia
aglomeração e eles acabavam lucrando",
conta.
A generosidade de Silvio
também ficou marcada para Leatal: quando podia,
o vendedor distribuía roupas velhas entre as
crianças de rua da Praça Araribóia, em
Niterói, onde fazia ponto."Ele não fazia
escândalo, escolhia uns moleques e falava: toma
essa roupa para não passar frio", conta
Leatal. Os trabalhadores mais pobres também não
deixavam de levar para casa o que estavam
precisando. Bom comerciante que era, Silvio abria
crédito para os que sempre passavam pelo local.
Só saía de mão abanando quem queria.
O visual já era bacana.
Apesar de simples, as blusas eram estampadas,
acompanhadas de colares no pescoço. Uma
costeleta grossa dava o arremate final.
Era nas barcas Lagoa,
Maracanã e Neves que o vendedor e os clientes
cobriam o trajeto RioNiterói. Dessas, só
a primeira encontra-se em funcionamento, fazendo
o percurso RioPaquetá. As outras
transformaram-se em sucata e lembrança.
Mas, para Silvio Santos o
céu sempre foi o limite. "Tinha dias que o
via com barraca montada em Niterói de manhã e
depois, à tarde, no Centro da cidade. O homem
parecia ser dois", fala o contra-mestre.
Onde a felicidade
começou
A primeira empresa de
Silvio Santos
nasceu de uma parceria com Manoel da Nóbrega,
que fora vítima de um golpe. O Baú era,
na verdade, uma cesta de brinquedos
PARCERIA.
Silvio se associou ao amigo Manoel da
Nóbrega,
dono do Baú da Felicidade, para salvar o
negócio.
Na foto, os dois,na Praça da Alegria
A primeira vez que Silvio
Santos entrou no Baú da Felicidade foi uma
decepção. Ele nada tinha a ver com aquilo.
Estava ali, na Rua Líbero Badaró, colado ao
Othon Palace Hotel, em São Paulo, a pedido do
amigo e dono da empresa, Manoel da Nóbrega, para
fechar aquela bodega e prometer aos clientes
enganados que a dívida seria paga. No lugar,
estranhou ver um prédio aos cacos e, na frente,
um bando de camelôs que vendiam gravatas e
camisas. Desorientado, perguntou onde era a loja.
Ficou surpreso com a resposta: "É lá no
fundo, mas lá embaixo, no porão".
No Baú, outra cena de
abandono. Na pequena loja, havia apenas uma
secretária, um alemão e uma máquina de
escrever. A primeira providência de Silvio foi
mandar embora o tal alemão dono da idéia
de montar o Baú da Felicidade.
Em 1957, Manoel da
Nóbrega, radialista de sucesso em São Paulo,
foi procurado na Rádio Nacional pelo tal
alemão, que queria fazer uma Cesta de
Brinquedos: as pessoas pagariam primeiro e, no
fim do ano, receberiam um baú carregado de
mercadorias. Na negociação, Nóbrega pagaria
pelos anúncios e emprestaria seu nome à firma.
O alemão cuidaria da empresa.
Nóbrega fez a sua parte.
Mil pessoas compraram a idéia, atraídas pelos
anúncios, mas o sócio perdeu todo o dinheiro.
Resultado: virou um baú de despesa para Manoel
da Nóbrega, que recorreu a Silvio Santos para
salvar a pele. Bom de papo, sua função era
convencer as pessoas a não fazer escândalos no
jornal, já que o dinheiro seria devolvido.
No quinto dia, Silvio,
então com 27 anos, percebeu que o negócio, bem
administrado, poderia render uma fortuna. Ele fez
a mesma proposta que o alemão: Nóbrega
continuaria com os anúncios, enquanto ele
tocaria a empresa. A primeira medida foi trocar a
caixa de veludo bordô que envolvia os presentes
e mais parecia um "caixão de defunto".
Passou a vender em catálogo e diversificou as
mercadorias. Chegou a encomendar 40 mil bonecas,
na Estrela, e fez negócio com a fábrica Nadir
Figueiredo para entregar 20 mil jogos de jantar.
Nóbrega ficou receoso com
volume do negócio. "Olha, Silvio, eu nunca
fui ao Baú, nem com o alemão e nem com você.
Acho que qualquer dinheiro que o Baú possa me
dar é desonesto, porque nunca fiz nada pela
firma, a não ser os anúncios. Como você é um
rapaz corajoso demais, tenho medo que possa fazer
um negócio muito grande e, com seu entusiasmo,
dê uma cabeçada", disse Nóbrega, em
passagem citada no livro A Fantástica História
de Silvio Santos, de Arlindo Silva, da Editora do
Brasil. "Não tenho nenhuma intenção de
ser o dono do Baú. É melhor que você fique com
ele", completou.
Mas, ao contrário do
alemão, Silvio conseguiu levar adiante os
negócios e ainda devolveu todo o investimento
feito por Nóbrega. O apresentador fez questão
de pagar tudo por gratidão ao amigo. Nóbrega o
ajudara no início em São Paulo. Silvio chegara
a passeio à Terra da Garoa, três anos antes, a
convite de um diretor da Antarctica. A intenção
era ficar alguns dias, enquanto a barca da
Cantareira, em que mantinha um bar, fosse
consertada e voltasse a operar na travessia
Rio-Niterói.
Por acaso, Silvio encontrou
um amigo em suas andanças por São Paulo. Era um
locutor que conhecera na Rádio Tupi, no Rio. Ele
comentou que a Rádio Nacional precisava de
locutores. Silvio fez o teste e passou, em
primeiro lugar. Foi quando conheceu Manoel da
Nóbrega.
Em São Paulo, Silvio atuou
em várias frentes. Para pagar a dívida do bar
que montara na barca, no Rio, entrou em sociedade
com o cunhado de Hebe Camargo, Ângelo Pessutti,
lançou uma revistinha com prêmio e atuou até
em circo.
Em caravanas pelo interior
de São Paulo, Silvio ganhou um novo apelido: o
Peru que Fala. Nas apresentações, ficava
envergonhado, e seu rosto logo ruborizava. Ele
trabalhava intensamente. Nos intervalos, para
agüentar o tranco, parava nas farmácias e
tomava injeções de Cálcio Cetiva na veia.
"Agüentei, perdi
cinco quilos, fiquei branco, dizia que eu ia
estourar. Foi nessas Caravanas do Peru que
Fala que eu adquiri a facilidade que hoje
tenho para animar meus programas", disse
Silvio a Arlindo Silva.
O sucesso do Baú fez
Silvio Santos se lançar em outro negócio. Em
1961, ele estreou na televisão com um programa
noturno na TV Paulista, atual TV Globo. O Peru
que Fala deu o pulo do gato.
De colega de escola,
Stella passou
a fã e compradora dos carnês
Para Stella Matutina
Bicalho, 70 anos, O Baú da Felicidade também
poderia se chamar Baú da Saudade. Compradora
assídua dos carnês, ela tem motivos pessoais
para torcer. O apresentador, que ela não vê há
52 anos, foi de sua turma na 4ª e 5ª séries
(1941/42) na Escola Primária Celestino da Silva.
"Ele estava sempre impecável, com o cabelo
engomado", lembra Stella.
No fim de 1942, os amigos
foram para colégios diferentes, mas Stella
sempre encontrava Silvio vendendo canetas na Rua
da Carioca. No último encontro, em 1949, o
futuro apresentador mostrou sua aliança do
noivado com a primeira mulher, Aparecida Honória
Vieira, a Cidinha. "Ele estava muito feliz e
orgulhoso", conta. A partir daí, Stella
acompanhou de longe seu sucesso, tornando-se
cliente fiel de seus produtos. "Torço
diariamente por sua vitória. Ele é um
batalhador", justifica.
Funcionário da
empresa guarda baú de histórias
PASSADO.
A primeira loja do Baú no Rio funcionava na
Rua Frei Caneca, 73
Trabalhando há 24 anos na
loja de troca de mercadorias do Baú no Centro,
Edmílson Soares Peixoto, 40, foi um dos
agraciados pela empresa de Silvio Santos, mesmo
sem nunca ter sido sorteado. Ele começou como
office-boy e, hoje, é gerente da loja por onde
circulam, diariamente, 700 pessoas. "Foi
aqui, também, há 12 anos, que conheci minha
esposa, vendedora", conta.
O patrão famoso nunca
esteve na loja e nem sequer conhece Edmílson.
"É um homem muito ocupado e, se viesse
aqui, a loja seria invadida", justifica. Em
janeiro, o funcionário visitou pela primeira vez
que o estúdio do SBT, onde os clientes
escolhidos tentam a sorte. "Foi um momento
de muita emoção, inesquecível", confessa.
Em sua opinião, sentimento igual, só quando
Silvio diz para os participantes do programa:
"Agora, vamos girar a roleta".
INÍCIO
Na Rádio Mauá, ainda no Rio, Silvio conheceu
artistas e se empolgou
Sílvio mostra a cara na
TV
Em 1961, o Baú
prosperava tanto que o apresentador passou a
chamar a atenção.
Um deputado resolveu patrociná-lo
na antiga TV Paulista
CERCADO pelas
"colegas de trabalho", as Silvetes,
no tempo da TV Globo, que comprou a TV Paulista
Silvio Santos já foi o
Faustão da TV Globo. A partir de 1966, o
apresentador passou a comandar a maratona do
domingão global. Ganhava força o homem que se
transformaria na maior ameaça à hegemonia da
Rede Globo.
Silvio chegou ali como quem
não quer nada. O primeiro programa, ainda na TV
Paulista, chamava-se Vamos Brincar de Forca e era
baseado na manjada brincadeira em que os
concorrentes são vão sendo enforcados à medida
que erram a resposta. Era apresentado à noite,
em 1961. Foi um sucesso.
Mas, para conquistar seu
espaço na TV, Silvio Santos contou com a ajuda
do deputado Carlos Kherlakian, dono das Casas
Econômicas de Calçados, para quem havia feito
comícios durante as apresentações das
Caravanas do Peru Que Fala. Foi nesse período
que o Baú da Felicidade mudou o esquema de
cobrança: as pessoas compravam e só depois
escolhiam as mercadorias. Com sua potência
empresarial, o Baú, já naquela época uma mina
de ouro, deu suporte aos comerciais do programa.
No ano seguinte, o dono da
TV Paulista, Vitor Costa, estava interessado em
lançar um programa de variedades do meio-dia às
14h, aos domingos. A preferência pelo horário
era por Manoel de Nóbrega. Mais uma vez,
Nóbrega, um daqueles amigos que caem do céu,
cedeu o espaço para o entusiasmado Silvio. O
apresentador sempre se mostraria grato por esse
gesto.
Numa só tacada, Silvio
estreou vários quadros no domingo, em meados de
1962. Entre eles, Cuidado com a Buzina, Só
Compra Quem Tem, Rainha por um Dia, Partida de
100 e Pergunte e Dance. Não foi difícil se
transformar no dono do domingo.
Em 1966, quando Roberto
Marinho comprou a TV Paulista, Silvio foi mantido
com seu programa dominical. Fechou um contrato
por cinco anos. Ele era o dono do horário, e
nunca foi empregado.
Por de trás das câmeras,
Silvio decidiu se casar. Ninguém poderia saber.
Para ele, todo o ídolo deveria manter uma
mística. As colegas de trabalho, como ele chama
o seu público, deveria permanecer na dúvida
sobre o seu estado civil. A amada se chamava
Aparecida Honória Vieira. Filha de uma dona de
pensão, Cidinha costumava freqüentar a Rádio
Nacional, em São Paulo, para conhecer artistas.
Ficaram amigos.
Os dois se apaixonaram e
resolveram se casar, às escondidas, em 15 de
março de 1962. Precavido, Silvio preferiu o
regime de separação de bens.
O anonimato incomodava
Cidinha. Em certa ocasião, ela chegou a comentar
com uma amiga que tinha vontade de pregar a
certidão de casamento na porta de casa. Era
comum baterem a sua porta e perguntarem:
"Você é a mulher do Silvio?" Um dia,
o apresentador se arrependeria da atitude. O
casal teve duas filhas: Silvia e Cíntia.
Nada poderia atrapalhar a
carreira de sucesso. O ano de 1968 foi um que, em
particular, nunca deveria ter acabado para
Silvio. Os índices de audiência o elevavam à
condição de estrela da emissora.
Aos domingos, era o rei, e
imperava do meio-dia às 20h com os programas:
Show de Calouros; Show da Loteria; Vamos Fazer
Média; Disco de Ouro; Quem Sabe Mais, o Homem ou
a Mulher?; Sinos de Belém e Boa Noite,
Cinderela. Este último encantava e emocionava,
principalmente as crianças. Em um cenário de
conto de fadas, uma garota, geralmente de
família humilde, passava um dia de Cinderela,
com direito a sapatinho de cristal, coroa e
trono. Sempre ao som de uma canção que embalava
a emoção dos telespectadores. Fez tanto sucesso
que ficou 10 anos no ar.
Mas o programa que mais
preocupava a produção era Sinos de Belém. As
tarefas aventureiras eram executadas também por
Silvio, que até subiu e desceu um prédio de 15
andares pela escada dos bombeiros. Seus
colaboradores o convenceram a maneirar.
Silvio chegou a acumular
programas. Além do sucesso na Globo, ele
apresentava o Cidade Contra Cidade, que também
alavancava a audiência na TV Tupi. As
delegações, vindas em caravanas, disputavam
olimpíadas de provas no ar.
No palco global, o
apresentador contava com as Silvetes. Eram as
assistentes, que se destacavam pela beleza. Em
meados de 1971, ele passou a apresentar o Troféu
Imprensa. O prêmio havia sido lançado em 1958,
pela revista São Paulo na TV, e premiaria os
destaques da televisão e do rádio.
Para ajudar um amigo,
Silvio Santos aceitou até, em 1971, aparecer
careca na capa da Revista Melodias, que estava
quase na falência. Arlindo Silva, que escreveu o
livro A Fantástica História de Silvio Santos,
garante que foi feita uma fotomontagem para
atrair a atenção do leitor. Mas a revista
ajudou a aumentar um outro mistério em torno de
Silvio: Lombardi, ele é careca ou não é?.
"Careca, ele não é. Se fez implante, foi
só um tufinho na testa", afirma Arlindo
Silva.
Em 1973, o apresentador
enfrentou um drama. A mulher Cidinha descobriu
que estava com câncer durante uma viagem a
Espanha. Ela sentia fortes dores no estômago e,
em quatro anos, a doença se espalhou pelo corpo.
Cidinha fez tratamento até em Nova Iorque.
A despedida do casal
ocorreu na UTI do Hospital Albert Einstein. Até
na hora da morte, Cidinha mostrou o quanto se
preocupava com Neco, como chamava o amado, em
alusão a boneco: "Neco, você tomou seu
café da manhã?", perguntava, nos últimos
momentos de vida.
SILVIO acertou na
mosca ao apostar na
audiência de programas de jogos
Pedro de Lara e o
patrão: dobradinha na interpretação de sonhos
Das ondas do rádio para a
tela da TV. O comediante Pedro de Lara, 76 anos,
companheiro de trabalho de Silvio Santos há 30,
acompanhou a evolução da carreira do amigo, de
locutor para maior apresentador de programas dos
últimos tempos.
O primeiro encontro
aconteceu na extinta Rádio Nacional, quando
Silvio e Pedro apresentavam um animado programa
de interpretação de sonhos "Já
fazia algo parecido no Rio, na Rádio Globo. O
Silvio me convidou para estrear em São
Paulo", conta Pedro.
As recordações da época
vêm recheadas de risos. Silvio, com a voz
impostada, narrava o sonho de uma ouvinte e,
depois de um tempo no qual o público permanecia
ansioso, a pergunta do significado era feita a
Pedro, uma espécie de guru. "Eu não podia
titubear, tinha que interpretar na hora. Os temas
eram os mais variados, muitos envolviam o mar,
como a ouvinte que relatou o sonho em que era
levada por uma onda", conta.
Depois do rádio,
convite para trabalhar na TV
Ao estrear na TV, Silvio
convidou Pedro para participações em seu
programa e, graças ao sucesso, ele acabou
ficando. Foram mais de 10 anos nos quais Pedro
acabou com a raça de pobres calouros nas tardes
de domingo. "Nosso linguajar é o mesmo,
somos povão ", diz.
Apesar de admirar o
apresentador, Pedro confessa que não queria ser
ele por nem por apenas 20 minutos. "É um
homem que não se pertence. O trabalho o domina.
Ele nasceu para ser um líder, mas, para isso,
abdicou de muitas coisas", opina.
Quanto à vida pessoal do
patrão, o comediante afirma nada saber.
"Ele sempre foi reservado e eu o respeito.
Estou no SBT até hoje porque sei o meu
lugar", diz, com humildade.
Uma das brincadeira
prediletas de Pedro de Lara com Silvio era falar
do jeito econômico do patrão. "Uma vez,
comecei a elogiá-lo, falando que ele era um
grande multiplicador. Quando ele abriu um
sorriso, disparei que, infelizmente, eu só sabia
dividir, e aproveitei para pedir R$10 mil",
conta, recordando a resposta. "Ele foi
rápido e direto: Vai chatear outro,
Pedro!".
Um canal de influências
Silvio age nos
bastidores para sair à frente na luta pelas
concessões de TV. Com o refrão é coisa
nossa, conquista a simpatia das autoridades
SILVIO chora
durante a assinatura da concessão do
canal 11 (TVS). De costas, Manoel da Nóbrega,
que vendeu
o Baú da Felicidade para o apresentador
Nos bastidores do programa
de Silvio Santos, havia uma ordem expressa:
ninguém podia chegar perfumado perto do patrão.
Nem mesmo com perfume francês. O ex-camelô
sofria de alergia a qualquer fragrância, o que o
deixava sem seu principal instrumento de
trabalho: a voz. O perfume provocava, na garganta
e nas vias respiratórias do apresentador, uma
reação que o deixava rouco; muitas vezes, sem
poder falar.
Durante muito tempo, Silvio
dividiu-se entre Brasil e Estados Unidos. Os
americanos aplicavam injeções de cortisona no
nariz do apresentador a cada quatro meses. Era a
única maneira que ele encontrara, até então,
para inibir a doença. "Um dia, durante a
gravação do programa, ele ficou rouco e
começou a se queixar: Acho que os
americanos não aplicaram essa injeção
direito", lembra Arlindo Silva,
assessor de imprensa de Silvio Santos por 25
anos. Foi o suficiente para que ele procurasse
outro profissional: o alergista Tufik Mattar
(foto abaixo).
"Ele sofria de edema
de Quink, alergia muito comum. Eu o obriguei a
parar de tomar a tal injeção com cortisona e
fiz uma autovacina", conta Tufik. Durante
três anos, religiosamente, ele tomou doses da
nova vacina e, segundo o médico, ficou curado.
"Agora, podem até beijá-lo com perfume,
que não tem problema", afirma.
Nos negócios, o fôlego
continuava invejável e Silvio foi montando seu
império. O sucesso na TV alimentou ainda mais as
vendas do Baú da Felicidade. Para atender novos
clientes e manter o lucro em suas mãos, Silvio
criou novas empresas. A primeira era de
publicidade, para agenciar outros anunciantes.
Com o lançamento do Plano para a Casa Própria,
surgiu a necessidade de montar uma construtora.
Depois, uma financeira, para facilitar o
crédito, e uma concessionária, para entregar
carros outra novidade do Baú. Não
satisfeito, Silvio lançou também uma companhia
de seguros.
Para aliviar a mordida do
Leão do Imposto de Renda, o empresário passou a
aplicar parte do lucro em agropecuária, no Mato
Grosso, e em reflorestamento, no Paraná.
"Veja você como é o destino: um negócio
que surgiu em um porão é, hoje, um verdadeiro
mundo", comentou ele, em entrevista à
revista O Cruzeiro, em 1972.
O furacão Silvio Santos
espalhava-se em todas as direções. Em 1974,
criou a empresa Studios Silvio Santos Cinema e
Televisão, uma grande central de produção do
programa do apresentador, de comerciais,
coberturas jornalísticas e shows em feiras.
"Tem tudo o que uma estação tem. Só falta
o canal", observou à época.
Silvio continuava na TV
Globo, mas como seu próprio patrão. Pagava o
horário à empresa, vendia comerciais e
embolsava o lucro. Mas a emissora começou a
esticar o olho sobre o horário ocupado por ele,
no domingo. Inicialmente, a Globo lhe ofereceu um
novo contrato, em que o apresentador perderia
parte do poder. Há muito, queria-se interferir
no programa, considerado fora do padrão global.
Silvio não aceitou os novos termos. A saída
parecia irreversível.
O dono da Globo, Roberto
Marinho, porém, entrou em cena. Em telefonema a
Silvio, explicou que, apesar da opinião
contrária de seus diretores, queria que Silvio
continuasse. Em 1972, o animador fechou contrato
com a Globo por mais cinco anos.
Por baixo dos panos, Silvio
começou a articular a consolidação de um canal
de TV. A oportunidade surgiu quando João Batista
Amaral quis vender os seus 50% de ações da TV
Record. O outro sócio, Paulo Machado de
Carvalho, foi quem sugeriu a compra a Silvio. Mas
o grupo Gerdau passou a frente na oferta. Seis
meses depois, por divergências com o sócio, o
grupo recolocou as ações à venda. Foi então
que Silvio fechou o negócio e ficou com metade
da Record.
Pelo contrato com a Globo,
ele não poderia ser acionista de nenhuma outra
emissora de televisão. Por isso, a negociação
foi mantida em sigilo, e Silvio usou um
testa-de-ferro: o empresário Joaquim Cintra
Gordinho.
Por fora, o apresentador
continuou buscando a concessão do canal 11, do
Rio. Escaldado por outras tentativas frustradas,
no passado, Silvio agiu nos bastidores. Valeu-se
da influência de amigos no Governo para
apresentar seu projeto de um canal
autofinanciável por suas empresas. Em seu
programa, passou a citar o nome de políticos que
poderiam interceder a seu favor.
"O Raphael Baldacci é
coisa nossa... O general Golbery é coisa
nossa", cantava aos domingos, para milhares
de telespectadores. Raphael era o deputado que
opinava, no Ministério das Comunicações, sobre
concessões; e Golbery, o chefe da Casa Militar
da Presidência da República. O resultado não
poderia ser outro: em 22 de outubro de 1975, o
presidente, o general Ernesto Geisel, assinou o
decreto que outorgava o canal 11 (TVS) a Silvio
Santos. E Silvio saiu da Globo no dia 5 de
janeiro de 1976.
Ganancioso, passou a
apresentar seu programa simultaneamente na TV
Tupi e na TV Record, em São Paulo, e na TVS, no
Rio. Manteve os laços estreitos com o poder. Ao
saber da concessão de duas novas redes pelo
governo militar, o empresário entrou na
concorrência. Mais uma vez, lançou-se a uma
luta ferrenha nos bastidores. Um de seus jurados
no programa era Carlos Renato, primo da mulher do
presidente João Figueiredo, Dulce Figueiredo.
Até mesmo a dupla Don e Ravel, que compunha
músicas que agradavam à cúpula militar
("Eu te amo meu Brasil, eu te amo..."),
foi mobilizada.
Silvio promoveu a dupla. Em
contrapartida, Don intercedia em favor do
apresentador. Outra vez, deu Silvio na cabeça.
Ele abocanhou mais quatro canais. Como um era no
Rio, vendeu-o para a TV Record. Surgia, aí, o
Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).
'É difícil dizer
não a ele. Sempre acaba
conseguindo fazer valer sua opinião
"Sempre quis falar do
fenômeno Silvio Santos. Ele poderia ter sido um
homem como milhões, mas resolveu construir seu
futuro amparado numa determinação e intuição
incríveis. Quando ele decide apostar, pode ter
certeza: vai dar certo! Líder nato, mais fala do
que ouve, mas consegue captar o instante em que
uma idéia deva ser colocada em prática. Outra
coisa: é difícil dizer não a ele. Por ser mais
que um patrão, um vitorioso, humilde apesar do
seu poder, Silvio sempre acaba conseguindo fazer
valer sua opinião. E é mesmo complicado
discordar da lógica de um homem que vive
televisão 24 horas por dia.
Às vezes, eu e outros
profissionais não entendemos a aversão que ele
mostra por alguns aspectos importantes de uma
grade de televisão, como o jornalismo, por
exemplo. Mas eu acho que isso vai acabar mudando,
e o SBT acabará abrindo espaço para mais
notícia. Mesmo assim, confiamos no faro dele,
pois seu maior segredo é a cumplicidade com o
público."
HEBE CAMARGO, 72 anos, apresentadora
Antigos jurados dão
o veredicto sobre
o animador de auditório
ELKE MARAVILHA: relação
fria com oi e tchau
Impossível esquecer o
júri que alegrava as tardes de domingo no
Programa de Calouros, apresentado por Silvio
Santos. Décio Pittinini, Araci de Almeida, Pedro
de Lara e Sérgio Mallandro foram alguns dos que
passaram e deixaram sua marca. A lembrança
deixada pelo patrão oscila entre extremos: para
uns, santo; para outros, nem tanto. "Não
posso falar de minha relação com Silvio, pois
ela não existia. Era só oi e tchau" disse
Elke Maravilha, que por sete anos fez parte do
júri. Por isso, ela criou para o apresentador o
apelido de "patrão". "Um dia, ele
me perguntou por que eu o chamava assim. Respondi
que no dia em que fosse meu amigo, eu o chamaria
de amigo", explicou, lembrando que o
apresentador Chacrinha, com quem também
trabalhou, era chamado de "painho".
O apresentador Wagner
Montes, 46 anos, idolatra Silvio. "Quando
sofri o acidente, ele ligou para o meu pai e
falou que não se preocupasse, pois buscaria para
mim a melhor prótese do mundo. Nunca esquecerei
isso", disse, emocionado. Mas Sônia Lima,
39 anos, sua mulher há 14, não compartilha a
opinião: "Gosto muito do Silvio, mas acho
que ele não valorizou as pessoas que começaram
com o SBT. Sempre soube criar seus produtos, usar
e depois jogar fora".
A urna da felicidade
Silvio Santos se casa
pela segunda vez,
sofre com problemas na garganta e o
poder cada vez mais o seduz. Ele tentou,
em vão, ser candidato a prefeito e
também à Presidência
É namoro ou amizade? Nem
um nem outro. O caso de Silvio Santos com a
funcionária Íris Pássaro, do Baú da
Felicidade, filha de um pequeno empresário, foi
paixão avassaladora. Os dois se casaram, longe
da Imprensa, em 20 de fevereiro de 1981.
Exatamente como no primeiro casamento, Silvio
que tem fama de pão-duro se uniu
à amada em regime de separação de bens. Contou
com o apoio da mulher nos momentos mais
delicados, até quando se candidatou a
Presidência da República (na foto, ainda se
recuperando da cirurgia que precisou fazer nas
cordas vocais, Silvio, ao lado de Íris, decide
sair candidato à prefeitura de São Paulo).
O casal tem quatro filhas:
Daniela, Patrícia, Rebeca e Renata. Certa vez,
durante um programa, ele falou emocionadamente
sobre a paixão. "Me satisfaço com ela, sou
feliz com minha família. Não tenho necessidade
de mais nada", disse.
Silvio estava amadurecido.
Nada lembrava aquele menino da Lapa, aos 14 anos,
que realizou a primeira relação sexual com uma
prostituta francesa. Uma experiência que lhe
agradou. Satisfeito, procuraria mais tarde outra
francesa. O garoto ficaria assustado com as
manobras radicais, que se definiam - é tudo que
sabia - como bouchet.
O começo do Sistema
Brasileiro de Televisão (SBT) foi de vacas
magras. A assinatura da concessão da nova rede,
com quatro canais, ocorreu em 19 de agosto de
1981. A cerimônia foi transmitida ao vivo pela
TVS, do Rio, e pelo canal 4 de São Paulo.
A programação era à base
de enlatados, novelas mexicanas e produções
baratas. Era o que preenchia as 12 horas no ar
exigidas pelo Ministério das Comunicações. A
opção desde o início foi por uma grade de
programação mais popular do que a da Globo.
Entre as atrações da
rede, estavam Moacir Franco Show, O Homem do
Sapato Branco, Feira do Riso, Almoço com as
Estrelas e Raul Gil e o palhaço Bozo. Marcou
época o programa O Povo na TV, com Wilton
Franco, que relatava casos policiais com
estardalhaço.
Com os dramalhões
mexicanos, pelo menos 25% mais baratos que as
novelas nacionais, Silvio encontrou novo filão.
O primeiro sucesso foi Os Ricos Também Choram,
com Verônica Castro.
Mas o programa que mais
surpreenderia seria uma produção de cenários
de papelão, piadas velhas e atores de segunda
linha. Ninguém contava com a astúcia de
"Chaves", personagem do mexicano
Roberto Boloños. Apesar de ninguém levar fé, o
programa permanece há 17 anos no ar.
O maior comunicador do
Brasil perdeu a voz. No final de 1987, Silvio
começou a ficar rouco. Chegou a importar um
aparelho para ampliar o som quando falava ao
telefone. O programa era interrompido quando
quase não conseguia ouvi-lo.
Preocupado, Silvio bateu em
retirada. Viajou para os Estados Unidos em busca
de tratamento. Ele descobrira que possuía um
tumor na pálpebra esquerda extirpado no
Brasil e, devido ao cansaço de um
músculo da garganta, ficava rouco.
A volta à TV ocorreu, um
mês depois, num domingo. Silvio era outro homem.
No programa, expôs suas inquietações, negou
boatos de que teria tido caso com Sônia Lima,
explicou a doença e falou sobre as
preocupações com o povo. Foi o que bastou para
o homem do Baú ser taxado até de novo Messias.
Era a deixa para Silvio
entrar na política. Assessores do PFL entraram
em ação para viabilizar a sua candidatura à
Prefeitura de São Paulo.
Silvio queria ser um
político diferente e não gostava de fazer
campanha. Ele fora alertado sobre as pressões
que sofreria. À época, argumentou que não
temia os ataques. Citou até reportagem da
revista Contigo que bancava a versão de que ele
e Gugu eram amantes. "O Gugu não é o meu
tipo", brincou Silvio, segundo Arlindo
Silva.
A indefinição de Silvio
sobre a candidatura o enfraqueceu. Na convenção
do partido, havia manobra para se apoiar a
coligação com o PMDB, apoiando João Osvaldo
Leiva, indicado por Orestes Quércia. Sem
possibilidades de vitória na convenção, Silvio
desistiu. Alegou, na ocasião, que seguia
recomendação médica para poupar a voz, devido
ainda a um edema na garganta. O empresário foi
operado no início de 1989.
O PFL voltou a fustigar
Silvio a entrar na política. Queria-o como
candidato a presidente da República. O
empresário passava por um momento delicado.
Ainda era incerto se ele poderia voltar a
apresentar seus programas devido ao problema na
garganta. Logo depois da cirurgia, Silvio reuniu
a imprensa para fazer um comunicado. "Minha
candidatura só depende de eu não ter
condições de falar profissionalmente",
contou.
Uma articulação no PRN
ainda tentou convencê-lo a ser o vice de
Fernando Collor. "Olhe, na minha vida, eu
nunca fui vice, só fui presidente", rebateu
Silvio, segundo o seu assessor Arlindo Silva.
A candidatura de Silvio
estremeceu a campanha em 1989. Muitos acreditavam
que suas empresas, principalmente o Baú, seriam
duramente atingidas por denúncias de
irregularidade. Para garantir o lugar na disputa,
Silvio sempre atrasado buscou um
partido nanico, o PMB. Mas não pôde levar
adiante sua campanha.
O Tribunal Superior
Eleitoral impugnou o registro do partido por não
ter feito convenções em nove estados. Durante o
pleito, houve acusações de que um outro partido
teria tentado vender a legenda para que Silvio
Santos se candidatasse.
No livro A Fantástica
História de Silvio Santos, o autor Arlindo
Silva, conta uma outra passagem polêmica: o
presidente das Organizações Globo, Roberto
Marinho, teria rompido uma amizade com o então
Presidente da República, José Sarney, por
acreditar que ele teria lançado Silvio Santos
como candidato pelo PMDB. Silvio ainda tentou
entrar na política mais duas vezes: para
governador e de novo para prefeito. Também não
deu certo. Pessoas ligadas ao apresentador
garantem: Silvio nunca mais trocará o Baú pela
urna.
Trechos da carta de
Íris
Na campanha para a
Presidência da República, uma parte do PFL
queria que Silvio Santos fosse candidato pelo
partido. As articulações não deram certo.
Silvio usou seu programa para explicar o caso e
leu um trecho da carta da mulher, Íris:
"...Contar vantagem,
todo o mundo conta. Mas é a coragem da luta que
tem valor, porque daí surgirá a vitória final.
Seja constante e persistente. (...) Se a
resposta, hoje, for a favor da sua candidatura,
não tema, pois terá Deus a seu lado para
realizar sua missão."
Apresentador chega a
ser posto
para fora de casa pela mulher
Silvio Santos não gosta de
expor sua intimidade. Não é à toa que
raramente concede uma entrevista. Mas, no fim de
1992, um escândalo fez sua vida pessoal
extrapolar os muros da mansão do casal
Abravanel, no Morumbi, em São Paulo. Ele e Íris
se desentenderam, e a briga foi parar na
delegacia. Íris registrou queixa, garantindo que
o marido teria aproveitado a ausência dela para
retirar obras-de-arte, móveis, tapetes e até um
cofre. Para configurar abandono de lar, ela fez
questão de que constasse no boletim que o
apresentador havia passado o fim de semana fora
de casa. Silvio Santos, por sua vez, também
registrou queixa contra a mulher, e o caso acabou
na Justiça.
À época, uma reportagem
do jornal paulista Diário Popular atribuía a
briga dos Abravanel à Rainha dos Caminhoneiros,
Sula Miranda. Irmã da também cantora Gretchen,
Sula tinha um programa no SBT e manteria, segundo
a reportagem, um romance com o patrão. Sula, na
ocasião, negou o caso. O ex-assessor de imprensa
de Silvio Santos, Arlindo Silva, garante que o
relacionamento não passou de um boato. "Foi
uma idéia suicida da assessora de imprensa da
Sula. Ela achou que isso poderia promover a Sula.
Mas foi tudo uma mentira. Silvio ficou furioso da
vida, tirou o programa do ar, e a assessora de
imprensa perdeu o emprego", contou Arlindo,
que se aposentou no ano passado e escreveu o
livro A Fantástica História de Silvio Santos.
Arlindo contou que o real
motivo da briga do casal foi o pouco tempo que
Silvio passava com a família. O apresentador se
dedicava demais aos negócios. "Íris
reclamou que as filhas não tinham convivência
com ele. Não viam o pai nem nos fins de
semana", afirmou.
Enquanto o caso ganhava o
noticiário, Íris e Silvio Santos discutiam na
Justiça. A senhora Abravanel chegou a trocar a
fechadura de casa para impedir a entrada do
marido. Em um lance inicial, estimou-se que Íris
receberia US$ 15 mil mensais (R$ 31,9 mil), fora
outras mordomias. Quanto aos imóveis, eles
casaram em regime de separação de bens, e Íris
poderia não ter direito à bolada. Mas, em 1993,
depois de muitas intrigas, o casal fez as pazes e
trocou beijos à frente das câmeras. Uma
intimidade que poucas vezes Silvio permitiu no
ar.
O duelo dos poderosos
Silvio Santos começa
a incomodar a TV Globo. O ex-funcionário agora
é um concorrente de peso e obriga emissora de
Roberto Marinho a alterar os planos
O empresário Silvio Santos
tirou do baú as armas na luta por pontos no
Ibope, a partir de 1987: Hebe Camargo, A Praça
É Nossa e Jô Soares. A fórmula, aparentemente
despretensiosa, deu certo. O Sistema Brasileiro
de Televisão está no segundo lugar em
audiência.
A vice-líder, às vezes,
alcança a liderança. Sinal de desespero para os
diretores da soberana TV Globo, a quarta maior
rede do mundo. É algo para impressionar até o
próprio Silvio. Tudo começara com um canal
furreca, a TVS, que exibia três vezes seguidas o
mesmo filme, em meados dos anos 70, por falta de
atrações para preencher a programação.
O primeiro aviso de que
Silvio viera para incomodar aconteceu durante a
exibição, pela TV Globo, da novela Roque
Santeiro, em 1985. Com a maior cara-de-pau, ele
convidava, em seu programa, os telespectadores a,
depois de assistir à novela da Globo, mudar de
canal para acompanhar Pássaros Feridos, um filme
exibido em cinco capítulos.
A surra foi mais forte que
um tapinha: o SBT obteve média de 47% de
audiência, contra 27% da concorrente. Para
tentar reverter o quadro, a Globo usou uma
estratégia que não deu certo: esticou os
capítulos da novela o quanto pôde. Silvio não
esquentou; mudou também o horário do filme.
"É um filme muito
bom, um filme a que eu já assisti várias vezes.
É a história de um padre que se apaixona. Mas
podem ver a novela. Esse filme só vai começar
depois que a novela acabar", repetia no ar,
durante seu programa.
Silvio fez isso várias
vezes. O telespectador cansou de ouvir as dicas
do apresentador sobre filmes que exibia em sua
emissora. Quando o empresário não assistia,
havia a impressão de alguém da sua família
sobre a fita. "Podem ver. Minha filha
assistiu e disse que é ótimo", comentava,
como se estivesse falando com um colega de
trabalho.
Mas, no fim dos anos 80,
ele decidiu melhorar a qualidade dos programas.
Investiu o dinheiro que recebera com a venda da
TV Record para a Igreja Universal. Abandonou, por
exemplo, atrações como O Povo na TV e o Moacir
Franco Show. A audiência era boa, mas o
faturamento não alcançava as cifras
necessárias para manter uma empresa como o SBT.
A fórmula que escolheu era
simples: bonito e barato e, principalmente, dando
lucro. "A Globo faz questão de estar em
primeiro lugar, nem que, para isso, tenha que
gastar milhões. Silvio pensa em não perder
dinheiro", observa o humorista Carlos
Alberto de Nóbrega, um de seus grandes amigos.
As atrações emplacaram.
Hebe Camargo transformou-se na "dama da
televisão brasileira", com seu programa,
nas segundas-feiras. A Praça É Nossa, que tinha
10 pontos na Bandeirantes, saltou para 35 pontos
no SBT. Jô Soares ajudou a qualificar a
programação, que passou a contar ainda com um
investimento pesado em jornalismo.
O SBT se consagrou como
líder absoluto do segundo lugar. Muitos
programas passaram a incomodar a Rede Globo, até
então imbatível. O jornal Aqui e Agora trazia
reportagens dinâmicas que retratavam,
principalmente, a violência sofrida pelos
moradores de São Paulo e também do Rio. Foi
tachado de "mundo cão", mas aumentou a
audiência do telejornal do SBT, que sempre
perdeu feio, nesse segmento, para a Globo.
O jornal do SBT, com Lilian
Witte Fibe, o TJ Brasil, com Boris Casoy, e o Jô
Onze e Meia atenderam classes mais altas, que
não costumavam apertar no controle o canal do
SBT. O apresentador Gugu foi substituindo o
patrão, aos poucos, aos domingos. O programa do
Faustão passou a perder no Ibope para o colega
de horário. Virou uma gangorra de audiência. A
cada semana, um era o vencedor. A estratégia de
Gugu foi concentrar suas melhores atrações no
momento em que Faustão está no ar. No resto do
dia, podia até perder para a Xuxa e o Tom
Cavalcanti, mas nunca do Faustão. Deu certo:
ganhou a briga dos domingos.
Gugu já esteve com um pé
na Globo, mas Silvio Santos abriu o baú para
mantê-lo na sua emissora. Quando Jô Soares
assinou com o SBT, a Globo contratou Gugu para
competir com Silvio nas tardes de domingo. O dono
do canal 11 agiu rápido e jogou pesado: fez uma
proposta irrecusável a Gugu, que à época,
comandava no SBT o Viva a Noite, e levou a
mulher, Íris, e as quatro filha à tiracolo para
o encontro. A pressão deu certo. Silvio Santos
pegou um avião com Gugu, e os dois conversaram
com Roberto Marinho. Foi tudo resolvido. Menos a
multa pela rescisão do contrato, que não foi
perdoada.
Em outro episódio, Silvio
conversou com os Marinhos. Ligou para o Roberto
Irineu Marinho, filho do dono das Organizações
Globo. O apresentador queria levar José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para
trabalhar no SBT. "Eu não vou dispensar o
Boni. Não me interessa que ele opere em outra
televisão", teria afirmado Marinho, em
frase reproduzida no livro A Fantástica
História de Silvio Santos, de Arlindo Silva.
Para neutralizar o
adversário, a Globo contratou algumas estrelas
da emissora rival. Jô Soares e Serginho Groisman
foram alguns dos que passaram para o lado de lá.
Para recuperar as perdas, a estratégia de Silvio
Santos foi tentar enfraquecer a concorrência.
Tentou minar Jô ao mudar o horário do programa
para ainda mais tarde.
Outras emissoras levaram
peças-chaves do SBT. Foi o caso de Eliana e
Boris Casoy, que arrumaram as malas para a TV
Record. Silvio manteve o formato dos programas,
com exceção do Jô Soares. Mas decidiu
abandonar o investimento no jornalismo para
priorizar o entretenimento.
Pessoas ligadas ao
apresentador garantem que Silvio Santos nem
sempre é um bom negociador. "O Ratinho
queria muito trabalhar no SBT. Silvio não quis.
Ele me ligou um pouco antes de assinar contrato
com a Record e pediu R$ 70 mil. Não teve jeito.
Quatro meses depois, Silvio o chamou e pagou R$
400 mil", lembra Luciano Callegari, primeiro
homem do SBT até 1997.
Ratinho conseguiu 15 pontos
de audiência com seu programa no SBT, o mesmo
percentual que Boni havia prometido conseguir
para a emissora, caso fosse contratado por
Silvio. "Foi mais fácil contratar o
Ratinho, que já me deu os 15 pontos de
audiência", brincou Silvio em uma palestra,
arrancando riso da platéia.
Carlos Alberto de
Nóbrega ficou 11 anos
sem falar com o apresentador. Ele pensava
que Silvio tivesse enganado seu pai
Ser segundo lugar já
incomoda ao SBT. Há quase um ano, na noite de
sábado, a resistente A Praça É Nossa vem
apanhando do humorístico Zorra Total, da TV
Globo. Para melhorar os números, o apresentador
Carlos Alberto de Nóbrega procurou Silvio
Santos. É preciso bagunçar a vida do Zorra.
A idéia de Carlos Alberto
é aumentar a divulgação da Praça durante os
intervalos no horário nobre do SBT. Outro pedido
é a encomenda, ao DataFolha, de uma pesquisa
para aferir a audiência e compará-la aos
números do Ibope.
O que Carlos Alberto de
Nóbrega tenta entender é como A Praça É Nossa
perdeu a liderança. Até um ano atrás, A Praça
emplacava média próxima de 20 pontos de
audiência. O máximo que o Zorra conseguia era
reduzir a diferença para 1 ponto, quando entrava
em cena o espetacular Alberto Roberto, personagem
de Chico Anysio. Depois da saída de Chico, A
Praça começou a perder. E feio. Crava 14 ou 15
pontos, contra mais de 22 pontos da Globo. Carlos
Alberto pediu ainda uma pesquisa para saber o que
o público acha da Praça.
Não é fácil dobrar o
homem do Baú. Silvio é autoritário e gosta das
coisas a seu modo. "Ele tem um temperamento
danado. Cansei de bater de frente com ele quando
cheguei à emissora, em 1987", relembra
Carlos Alberto, filho de Manoel de Nóbrega,
aquele que passou o Baú para Silvio.
"Hoje, eu sei me
relacionar com o Silvio. Imagina quantos
problemas ele tem. Faço o pedido no momento
certo, e ele nunca diz não", observou.
Os dois são amigos desde o
tempo em que Silvio vendia muamba, nos anos 50.
Fizeram juntos a primeira viagem ao exterior, a
Buenos Aires, na Argentina. Carlos Alberto
pretendia comprar coisas para o enxoval de seu
casamento. Silvio o convenceu a comprar isqueiros
e presilhas para gravata. "Disse que
venderia tudo em São Paulo. Com o lucro,
compraria o enxoval e ainda sobraria
dinheiro", recordou.
Em outra época, Silvio
comprara um carro aos pedaços. Na viagem para
São Paulo, Carlos Alberto dirigia e Silvio
segurava as portas. Ao chegar a São Paulo, ele
anunciou e vendeu o carro ali mesmo. Era uma
amizade de passeios, festas e confidências.
Os dois ficaram sem se
falar por 11 anos. Segundo Carlos Alberto, por
causa de um mal-entendido. Sem entrar em
detalhes, disse que o problema envolvia ações
da TV. "Meu pai me contou uma coisa. Só
depois, o Silvio me explicou tudo. Meu pai (morto
em 1976), que tinha Silvio como um filho, estava
enganado", conta.
Carlos Alberto é grato a
Silvio por ter salvado o pai da falência, em
1975. Manoel de Nóbrega se envolvera em um
malfadado negócio. Silvio pagou a dívida e,
provisoriamente, ficou com os bens de Nóbrega.
Um belo dia, Nóbrega, que pensara que perdera
tudo, recebeu todas as escrituras de volta (dois
ou três apartamentos, uma casa e dois terrenos).
Silvio viajou em seguida. "Ele não queria
receber o telefonema de agradecimento do meu
pai", relembrou.
A vida encarregou-se de
afastá-los. Hoje, só se encontram a trabalho.
Em datas festivas, Silvio envia cartão e
lembranças. Na Páscoa, mandou-lhe um grande
ovo. Na segunda-feira, Carlos Alberto completará
65 anos, mas sabe que o máximo que pode esperar
é um bom presente. "Preferia que ele não
me enviasse nada. Mas que aparecesse para me dar
um abraço", observou.
Ele é o show do bilhão
Silvio Santos é um
megaempresário.
O faturamento de suas 34 empresas soma
R$ 1,5 bilhão por ano. Só de salário,
ele retira R$ 55 milhões do Baú
O baú ficou pesado. Cheio
de dinheiro. Por ano, o apresentador Silvio
Santos recebe R$ 55 milhões de salário como
empregado do Baú da Felicidade e da Liderança
Capitalização. Ninguém no País paga mais
Imposto de Renda, como pessoa física, do que
ele. São R$ 15 milhões para o Leão. O
faturamento de suas empresas é superior a R$ 1,5
bilhão, anualmente.
Não é à toa que ele é
também conhecido como "o homem do
sorriso". Desde 1957, quando iniciou a saga
com o Baú, Silvio construiu uma carreira de
conquistas. "Achava que ele subiria na vida
por ter uma visão comercial. Mas nunca poderia
imaginar que chegaria tão longe", confessa
Carlos Alberto de Nóbrega, apresentador de A
Praça É Nossa e amigo dos tempos bicudos.
Silvio construiu um
patrimônio da ordem de R$ 879 milhões, conforme
declaração à Receita Federal, em 1999. Não
seria hora de parar, viajar pelo mundo e gastar
um pouco dessa fortuna?
Não adianta. Ele quer
mais. Já chegou a anunciar que se aposentaria
dos palcos aos 60 anos. Passados 10 anos,
continua com todo o vigor. À frente do Show do
Milhão, respira mais um sucesso.
Ao que parece, Silvio sonha
ir mais longe. E ele se prepara para tanto. Hoje,
o SBT já fatura um quarto do que a Rede Globo
abocanha.
Cuidadosamente, sem grandes
endividamentos, a emissora se expande. Um dos
marcos é o Complexo do Anhangüera, inaugurado
em 1996, um centro de produção para a TV
equivalente a 31 campos de futebol, a 17
quilômetros do Centro de São Paulo.
Para melhorar ainda mais a
qualidade da programação e passar a atrair as
classes mais altas, o SBT ataca em várias
frentes. Fechou acordos com as americanas Warner
e Walt Disney e a Televisa, poderosa emissora
mexicana. Acertou ainda com uma produtora
holandesa um programa nos moldes de No Limite,
exibido pela Globo. Só que os participantes se
envolvem numa disputa numa casa. A previsão
inicial é de levar a atração ao ar ainda no
primeiro semestre.
Silvio também está de
olho no mercado lucrativo das TVs por assinatura.
Formou consórcio com a Bandeirantes, fundos de
pensões norte-americanos e o Grupo Associados
(ex-Diários Associados) e criou a TV Cidade. Tem
autorização para operar em 16 municípios
brasileiros, entre eles, Niterói e São
Gonçalo.
Já investiu em um hotel no
Guarujá, à espera da liberação do jogo no
País. Esse empreendimento é inspirado em um
navio de luxo e poderá se transformar em um
grande cassino no litoral paulista. Silvio já
disse que pretende morar ali quando se aposentar.
Se isso acontecer.
Hoje, ele vive com a
mulher, Íris, e suas quatro filhas em uma
mansão no Morumbi. Contou com o conforto da
família para enfrentar grandes perdas. Seu pai,
Alberto, morreu em 1976. Léo, o irmão mais
chegado, foi enterrado em 1982. E a mãe,
Rebecca, sete anos depois. Durante a campanha
para prefeito de São Paulo, em 1992, um outro
baque.
Sua irmã Sara, mais
conhecida como Sarita, foi seqüestrada no Rio.
Ela saia de casa, na Tijuca, para o SBT, onde
trabalhava como diretora regional da emissora.
Quatro bandidos inexperientes a obrigaram a
entrar no porta-malas de um Chevette, sob a mira
de um revólver. Os seqüestradores exigiram 500
mil dólares (quase R$ 1 milhão) e mais meio
quilo de ouro. A polícia foi logo mobilizada
pelo governador Leonel Brizola e, em 15 horas, os
bandidos foram presos. O erro deles foi ligar
para um número com bina. Sarita ficou o tempo
todo amarrada, no porta-malas.
Aos 70 anos, completados em
12 de dezembro, Silvio é um homem vitorioso.
Dono de uma fortuna invejável, o seu maior
patrimônio, porém, é a popularidade. É o
maior apresentador da história da televisão
brasileira. Desde 1993, o Programa Silvio Santos
figura no Guinness, o Livro dos Recordes, como o
mais duradouro da televisão brasileira.
O engraçado é que o homem
que conseguiu tudo isso, o maior comunicador do
Brasil, peca pela timidez. "Ele é
terrivelmente tímido. Sozinho com alguém numa
sala, é um desastre. Mas, ponha um público ali,
e ele arrebenta", avalia o amigo Carlos
Alberto.
|
|